Archive for abril, 2010

EVENTO PRÓ-HAITI

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SIMULTANEIDADE NA MISSÃO

“Devíeis, pois, fazer essas sem omitir aquelas” (Mateus 23:23).

 

            Fui grandemente incomodado por algo essa semana. Fui procurado por um amigo, líder eclesiástico, que queria informações acerca de como ajudar o Haiti através de nosso projeto. Queria dados bancários, fatos e fotos para divulgação. De repente, peguei-me desencorajando aquele amigo a compartilhar em sua igreja sobre nosso ministério. Ele não podia falar em Haiti, e por um motivo simples: ele mora em Niterói, Rio de Janeiro, onde ocorreu uma das maiores catástrofes da história do Brasil, e isso há poucos dias.

            Meu objetivo foi protegê-lo. Que diria sua igreja, por exemplo, ao notá-lo pleiteando pela causa haitiana, num momento em que sua própria cidade carecia tanto? Quem o conhece sabe que ele já estava bastante envolvido com o socorro local, mas… não haveria como envolver-se ainda mais? – alguém criticaria. Portanto, preferi contar com auxílios de outros líderes, residentes em outras cidades.

            Depois do episódio, no entanto, pus-me a pensar. A igreja de Niterói é mais responsável por Niterói do que as outras igrejas do Brasil? E de quem será a responsabilidade pelo Haiti, já que trata-se de uma igreja pobre e sem forças autônomas para recompor-se nesse momento pós-tragédia? Onde a missão da igreja local deve ser prioritariamente executada? Creio que a resposta esteja numa palavra não presente na Bíblia, mas que esboça um conceito totalmente bíblico: SIMULTANEIDADE. Alguns pensamentos se seguem.

            1. O caminho da espiritualidade demanda que se atente para vários exercícios simultâneos Eis o desafio de Jesus aos fariseus que eram supostamente fiéis na contribuição financeira, mas que desprezavam a comunhão, a humildade, entre outros frutos. Na vida com Deus, precisamos buscar equilíbrio nas ações. Como igreja, nossas prioridades precisam envolver simultaneamente as missões transculturais, a evangelização local, a adoração, a edificação, a comunhão, entre outros. Se uma igreja só investir numa dessas áreas, ela será uma igreja sem equilíbrio, e conseqüentemente pouco saudável.

            2. A tarefa missionária da igreja demanda simultaneidade geográfica – Atos 1:8 é o fundamento: “Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas TANTO EM Jerusalém, COMO EM toda a Judéia e Samaria, E ATÉ aos confins da Terra”. A idéia não é progressiva ou seqüencial, é simultânea. Jesus não sugere que se termine uma tarefa e que se vá alastrando para um espaço maior. Ele ordena que a missão seja simultaneamente cumprida em todos os lugares.

Já ouvi líderes desafiando suas igrejas a alcançarem seus bairros. É preciso. É imprescindível. Mas os confins da Terra também são de responsabilidade da igreja local. Quando me questionam acerca da veracidade do meu chamado para a China, considerando a inquestionável necessidade do próprio Brasil, costumo referir-me a Ashbel Green Simonton. O fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil seguiu o chamado de Deus, por entender a simultaneidade da missão da igreja. Em sua época, muito havia a ser feito em seu próprio país.

            3. Deus tem dado à igreja brasileira condições de trabalhar simultaneamente em várias frentes – É fascinante observar o mover missionário entre as tantas igrejas do Brasil. Por um tempo, missionários tiveram de “mendigar” o apoio de suas igrejas para cumprir sua missão no mundo. Fui um desses. Mas creio que, embora ainda estejamos muito distantes do ideal, a igreja brasileira tenha progredido em sua visão missionária. Definitivamente, isso inclui o investimento financeiro. Não tenho acesso aos dados estatísticos, mas imagino que muito mais seja investido nos dias de hoje do que dez anos atrás.

Ainda assim, noto que somos levados por ondas. Ou ventos. Percebo que estamos onde a mídia alarma, uns intencionando algum marketing pessoal ou eclesiástico, outros com sinceridade inquestionável. Mas somos ainda emocionais e um tanto adolescentes em nossa forma de fazer missões. Nossos esforços já são muito menores no Haiti, quase nulos no Chile, e em poucos dias devem estar minimizados no Rio de Janeiro. E de catástrofe em catástrofe, de moda em moda, de onda em onda, vamos cumprindo o que cremos ser a Grande Comissão.

            A verdade é que, com grande omissão, vamos abandonando os postos onde a missão ainda deveria ser focada. Conforme o comissionamento de Jesus aos setenta discípulos, não andemos a mudar de casa em casa (Lucas 10:8). Que o Deus da missão tenha misericórdia de nós!

 
Mário Freitas é pastor, missiólogo e doido varrido. Atua no Haiti com pequenos projetos missionários. Muito pequenos. Casado com Giovana e pai de Pietra.

           

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TRANSFORMANDO CALAMIDADE EM OPORTUNIDADE


“Mudaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste de alegria” (Sl.30:11).

Estamos vivendo dias de calamidade. É assustadora a seqüência de fatos catastróficos que têm acometido o mundo, e por último, o Rio de Janeiro. São milhares de pessoas consumidas por terremotos, tsunamis, enchentes e deslizamentos, tudo num espaço aproximado de três meses. Alguns podem pensar que o fim está próximo.

Na verdade, desde a Bíblia há inúmeras referências acerca do tempo do fim. Algumas dessas referências parecem considerar que o início do fim já era ali, no próprio período bíblico. As evidências sempre estiveram aí, e creio que, de alguma maneira, Deus se comunica com os homens através de incidentes e acidentes naturais. Mas na mesma medida que Deus se comunica com o homem a todo tempo, e através de tudo o que acontece. Deus jamais parou de falar.

No entanto, mais importante que compreender a natureza da catástrofe é extrair dela lições transformadoras para a nossa vida e para nossa caminhada como igreja. Os caracteres chineses comunicam muito, e geralmente são formados de subcaracteres. A palavra crise, em chinês, combina dois conceitos, a saber: abismo e oportunidade. Podemos fazer da calamidade aquilo que quisermos – consiste numa decisão.

A calamidade é um momento propício e nobre para revermos nossa teologia. Na catástrofe, aquilo em que cremos é confrontado. Tragédia é tempo de repensarmos nossa linha de pensamento e a visão que temos acerca de Deus e do sagrado. Por vezes, sentimo-nos seguros demais na religião, e as grandes devastações são maneiras que Deus encontra de nos dizer, outra vez, que somos pó. Precisamos dele. Não há nada em nós que nos faça maiores que aqueles que morrem soterrados. Necessitamos dEle mais do que do ar que respiramos.

Portanto, a devastação pode servir de revelação. Na tragédia, podemos adentrar novamente os átrios da graça. É através das turbulências que Deus nos comunica o conceito mais central e original de toda a teologia e transcendência – a idéia de que Ele já fez tudo, e de que não há nada que precisemos ou possamos fazer. Nossa vida é nada, e como verdadeiros “nada cósmicos” precisamos prosseguir. Nosso orgulho e auto-suficiência são confrontados em tempos de calamidade.

Ainda, a catástrofe é uma oportunidade para averiguarmos como estão nossas prioridades espirituais, como está nossa vida pessoal com Deus. É tempo de avaliarmos no que é que temos investido. Quando poupados da calamidade, temos a chance de voltar ao Senhor. Vimos isso no Haiti. Presenciamos testemunhos de pessoas que afirmaram ter sido o terremoto um presente de Deus, visto que através do pânico elas viram Jesus. Milhares se converteram em função da tragédia. Oramos para que o mesmo ocorra no Rio de Janeiro.

Por último, considero que, na catástrofe, eu tenha uma oportunidade verídica para avaliar se minha vida é ou não frutífera diante de Deus. Tenho vivido como Ele me criou para viver? Tenho servido tanto quanto Ele me chamou para servir? Com o que tenho me comprometido?

A igreja tem uma tarefa inquestionável em tempos de grande tribulação. Pastores haitianos têm sido constantemente procurados em busca de respostas. No Rio, igrejas servem de abrigo. Para a glória de Deus, a calamidade torna-se em oportunidade de produzirmos, de sermos frutíferos.

Precisamos de gente comprometida nessa hora. Nossas prioridades precisam ser revistas. O tempo que investimos discutindo os “por quês” teológicos da catástrofe podem ser determinantes na alimentação de uma criança desnutrida, ou na devolução da dignidade de uma família desabrigada. Precisamos, portanto, rever a natureza do nosso comprometimento, e a tragédia pode ser nossa grande chance para tal. Estamos comprometidos com o que? Com a manutenção da “sã doutrina”? Quanto tempo perdemos “defendendo Deus”? Deus precisa mesmo de advogados? Ou nosso chamado é para manifestar o Reino?

Na tragédia, repensamos nossa efetividade, a eficácia do nosso comprometimento. Nossa forma de ser igreja, de cultuar, de programar, de agendar, é efetiva na hora da calamidade? É com humildade que precisamos fazer tal exercício.

Um texto bíblico esclarecedor nesse sentido é o de Lucas 13:1-9. Naquela ocasião, Jesus é questionado acerca de uma tragédia. Pilatos mandara misturar o sangue de alguns idólatras galileus com o produto de seu próprio sacrifício. Jesus afirma que tais pessoas não eram mais pecadoras do que as que não morrem assim. E convida aqueles “teólogos de plantão”, “caçadores de respostas”, ao arrependimento.

Em seguida, o próprio Cristo menciona outro ocorrido – a torre de Siloé, ao cair, dizimara 18 pessoas. Trágico. Mas Ele afirma que todos morreriam de maneira calamitosa, se não se acertassem com Deus. É enfático que há calamidade mais calamitosa que a tragédia ou os acidentes: a morte sem Deus!

Por último, Cristo relaciona a calamidade com a vida infrutífera. Ele conta a parábola da figueira que não produz, que ocupa espaço na terra e que merece ser cortada. O lavrador intercede, pedindo que mais um ano lhe seja concedido. Ele se propõe a adubar e cuidar da árvore, para que esta possa produzir. E esse prazo é dilatado; a oportunidade é concedida.

Na tragédia, Deus concede nova chance de frutificarmos. A calamidade é tempo da igreja dobrar-se diante de Deus e questionar honestamente onde e como temos investido nossas vidas e caminhos. Certamente, Ele haverá de adubar-nos e preparar-nos para um novo projeto.

Em tempos de pânico, Deus está. A calamidade é inevitável – Ele disse que teríamos aflições (João 16:33). Mas Ele também disse que estaria conosco todos os dias, incluindo os dias mais trágicos (Mateus 28:20). Tornemos, pois, a calamidade em uma nobre chance de rever conceitos, prioridades e valores. Que Deus tenha misericórdia de nós!

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