Archive for junho, 2010

NOTÍCIAS DA ENCHENTE por Sal da Terra

NOTÍCIAS DA LINHA DE FRENTE (E-mail transcrito)

Grupo Sal da Terra. Marcos é o segundo da esquerda para a direita.

“Fui sábado à Santana do Mundaú e Correntes. Pela extensão do grande número de cidades afetadas, estamos trabalhando (IV Igreja Presbiteriana de Garanhuns e sal da terra) apenas nestas duas cidades que ficam aqui pertinho da gente.
Para Correntes levei 350 cestas básicas e entreguei ao Pr. Cristiano. Elas serão fracionadas (entregues paulatinamente e criteriosamente) Estima-se, pelo menos, 5 meses para a reconstrução da parte da cidade que foi prejudicada com a cheia.
Correntes está numa situação melhor do que  Santana do Mundaú, posto que a área afetada foi menor, a cidade não se localiza só na beira do rio, pelo contrário, a maior parte dela está no alto. O Governo do estado está investindo pesado com máquinas, na revitalização de pontes, ruas e estradas.
Já em Santana do Mundaú, Lula “abriu o cofre” e creio que Deus ouviu as orações dos santos (mas continuem a orar até que TUDO se resolva). A cidade virou um quartel do exército, você não anda 50 metros sem encontrar um soldado trabalhando.
Evidentemente, o cenário não mudou em nada… Ainda é uma cidade desolada, totalmente comprometida, sem água, sem luz, restou muito pouca coisa além de escombros e um mal cheiro terrível. O que se vê são máquinas empurrando lama, filas de caminhões caçambas e pessoas tentando limpar e aproveitar casas e utensílios. Ainda existem ruas que estão sendo reabertas.
Apesar de tantas máquinas de tantos profissionais, engenheiros, técnicos, militares e voluntários. Percebe-se claramente que vai levar um tempo enorme para se reconstruir tudo. Até porque, o que se cogita é que as casas não vão ser reconstruídas no mesmo lugar, e é sensato que não sejam.
Como vai demandar tempo, é necessário que não haja desmobilização da ajuda que tem chegado a estas comunidades. Donativo têm chegado em grande quantidade de todo canto, mas é necessário que eles sejam fracionados até que tudo seja reconstruído.
Hoje (28/06/10) iríamos levar  mais  400 cestas básicas para lá, mas suspendemos a viagem pois choveu o dia todo e entrou pela noite, voltando a ilhar a cidade. Estamos orando para a chuva parar, senão teremos outra grande enchente amanhã.
Este é um fato totalmente novo para nós, ninguém tem registro de NADA parecido com o que está acontecendo agora. CHUVA, CHUVA, CHUVA! Horas a fio de chuva, ontem tivemos com quase vinte e quatro horas de chuvas sem parar, e se não parar vamos ter uma nova enchente. Que Deus tenha misericórdia!
O Pr. Cristiano (de Correntes) me falou que quem tinha voltado para casa já está tirando tudo de dentro de casa e levando para os lugares altos.  Ele me falou também que a cidade voltou a ficar sem água encanada, pois a chuva voltou a levar todo serviço de reparo que tinha sido feito.
A boa nova é que o Exército, com competência, tomou a direção de Santana do Mundaú, até porque, até a casa do prefeito foi severamente afetada… ele tem sido apenas coadjuvante no processo.
Eu conversei com o comandante da operação militar, Major Edson. Com muita atenção e presteza ele me esclareceu como é que começou a funcionar a assistência a saúde, apartir de então. Eles montaram um hospital de campanha, igual ao que usaram no Haiti, com seis tendas infláveis, um grupo gerador, 10 médicos, enfermeiros e atendentes, além de uma equipe de apoio. Tudo ficará montado até que a situação se normalize. Eles estão contando apenas com duas auxiliares de enfermagem voluntárias.
Portanto hoje, graças a Deus, não há necessidade médica a ser suprida… E nossa idéia da equipe médica para estas cidades foi suspensa (estavamos para receber  sete médicos esta semana).
Dizem que “Deus escreve certo por linha tortas” e isso parece se aplica ao que nós temos hoje. Possivelmente, o Sr Lula, sabedor de que este é um ano eleitoral, veio pessoalmente aqui, visitou os lugares e ordenou todo investimento necessário. Certamente para evitar aquelas entrevistas, onde as pessoas ficam acusando o governo que não está fazendo nada. Que Deus me perdoe se eu estiver julgando mal. Mas o fato é que, quer seja por uma mera questão política eleitoreira, ou não, a  verdade é que o governo federal assumiu com competência o controle das ações.
O exército montou, também, um armazém para recebimento e distribuição dos donativos, lá em Santana do Mundaú. Ao contrário do que se vê nestas situações, já não há mais tanto risco da aplicação errada dos donativos.
A ajuda tem chegado de todo canto, no meio de tanta destruição a solidariedade tem sido algo maravilhoso de se ver… Deus é bom! Mas é necessário que esta ajuda permaneça e se estenda até que tudo se resolva.
Volto a frisar que é necessário que a ajuda seja fracionada por todo período de tempo de reconstrução da cidade. E que ela não venha toda de uma vez só, entende? Por exemplo, eu acertei com um amigo meu de Recife que ao invés dele me enviar 50 cestas hoje (como ele planejava), que ele me envie 10 por mês até que a situação se normalize.
A questão de alojamento dos moradores do lugar não mudou muito, quem teve a casa danificada está tentando consertar, aqueles que a casa foi apenas invadida pelas águas está tentando limpar tudo (com água enlameada do rio) e quem teve a casa destruída espera uma posição do governo… Este é o maior “gargalo”, pois as famílias sem casa continuam sem estimativa quando esta situação vai mudar. E hoje, como excesso de chuvas que está caindo, não dá nem para montar barracas para alojar estas famílias, pois os terrenos estão todos encharcados.
O temor no momento é que não seja mantida a ajuda humanitária, que demore muito a reconstrução das cidades e que a tragédia entre no esquecimento antes que se remedie.
A minha idéia é realizar um inquérito em Santana do Mundaú, para identificarmos quais irmãos estão sem casa e o que será necessário para apoiá-los neste momento. Porém, ainda não temos uma definição concreta do que será feito pelo governo. A partir da informação do governo e dos dados que levantarmos juntos aos nossos irmãos desabrigados é que vamos fazer o nosso planejamento e recorrer aos nossos amigos.
Todas as nossas ações estão sendo realizadas em conjunto com a minha igreja e dirigidas pelo meu pastor.
Por favor orem pela orientação de Deus sobre nossa vida. Isso aqui virou um enorme quebra-cabeça.
O tempo vai passando as pessoas podem ficar abatidas na mesma proporção que a chuva as tem maltratado.
Infelizmente, estamos pagando o preço da nossa desobediência ao Pai e este planeta tão lindo que Ele nos deu passa por todas estas situações. O desmatamento, as queimadas, a falta de planejamento urbano, a falta de políticas públicas coerentes e tantos outros pecados tem resultado nisso que nós estamos vivenciando.
Um grato abraço e que Deus os abençoe,
Marcos – sal da terra”

* Marcos é líder do Grupo SAL DA TERRA, que viaja o Brasil levantando parcerias para trabalhos no Sertão Nordestino através de sua maravilhosa música. Portanto, não trata-se de uma banda musical, mas de um ministério missinário que concentra seu talento e disposição para a plantação de igrejas sertanejas. É um contato sério para doações para as vítimas de Alagoas e Pernambuco, visto que estão em Garanhuns, nas proximidades, e hoje coordenam parte das distribuições. O e-mail: marcossaldaterra@gmail.com

P.S.: Mais sobre o SAL DA TERRA pode ser visto nos links abaixo:
REPORTAGEM REVISTA ENFOQUE GOSPEL:
http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=49&materia=105
VÍDEO SOBRE A IGREJA MANANCIAL, LOCALIZADA NO SERTÃO E QUE CONTA COM A PARCERIA DO MINISTÉRIO SAL DA TERRA:
http://www.youtube.com/watch?v=wMiXCpZ49Gw
BANDA SAL DA TERRA NO EVENTO SOM DO CÉU DA MPC EM BH (TODO ANO ESTÃO LÁ!):
http://www.youtube.com/watch?v=xcabjvL5msQ
Anúncios

Comments (1) »

MINHA IGREJA SOFREDORA

Lamento Primeiro: Os resultados da Transgressão (Lm.1)

Quando falo em igreja sofredora, geralmente me refiro às comunidades cristãs do mundo todo, que adoram em locais de perseguição religiosa, catástrofe e pobreza extrema. Há outros locais onde o evangelho é vivido de maneira mais confortável e, por vezes, menos autêntica. É a igreja estável.

Em geral, tenho investido minha vida na tentativa de despertar a igreja estável para sua missão junto à igreja sofredora. Nos últimos meses, meu envolvimento com o Haiti fez com que esta missão pessoal ficasse ainda mais clara em minha prioridade vocacional. No entanto, percebo que a igreja estável também é sofredora. Como igreja brasileira sofremos o fruto do pecado que decidimos abraçar. É sobre isso o presente texto.

O livro de Lamentações é pouco explorado. Deveria ser um guia de orações da igreja contemporânea, visto que temos muito pelo que lamentar. A igreja está cada vez mais distante do projeto original de Jesus de Nazaré. Urge que lamentemos, e que, a partir do lamento sincero e contrito, sejamos presenteados com um avivamento genuíno.

Inicio aqui uma breve série baseada no livro de Lamentações, escrito pelo profeta Jeremias em função da destruição avassaladora que acometeu Jerusalém em 587 AC. Os lamentos do profeta dizem respeito à desolação de Jerusalém por ocasião da invasão babilônica.

Por conta da decisão do povo em mergulhar na transgressão e no abominável, Jerusalém foi tomada pelo rei de Babilônia. A devastação foi absoluta, e eis o que o profeta chora. Ele chora que Jerusalém não é mais o que era antes. Ele chora que o pecado tornou Jerusalém em uma cidade fantasma, um local desprezível, uma razão de chacota entre as nações vizinhas. Ele chora os resultados da transgressão do povo.

O primeiro resultado lamentado pelo profeta é a deformação. Jerusalém fora criada para ser gloriosa, nobre, honrosa entre as cidades dos povos. Agora, era uma prostituta desnuda, completamente entregue e envergonhada. Era uma vergonha ser de Jerusalém naquelas circunstâncias. Qualquer um se envergonharia.

Portanto, o pecado deforma-nos na medida em que nos transforma em algo diferente (e sempre inferior) àquilo que Deus nos criou para ser. A igreja está deformada, e isso é fruto da opção que fizemos pela transgressão. É um resultado natural. Precisamos lamentar.

Já ouvi diferentes histórias de mendigos que são ex-pastores e ex-líderes de igreja, hoje entregues ao alcoolismo e ao frio das ruas. O pecado deforma, ridiculariza o homem. E o processo que parece absurdo para quem vê de fora é rápido e envolvente para quem foi tomado pela força da transgressão. Eis o que ocorreu com a igreja. É preciso chorar.

A igreja de Cristo existe para reproduzir Sua obra, para ser sua agência na Terra. O pecado transformou a casa de Deus em casa de festa pagã; o estudo da Palavra numa empreitada de oportunismo acadêmico; a ética em elemento facultativo. Quando a igreja vive distante do que Deus a criou para ser ela está pagando o preço da transgressão que outrora abraçou.

O segundo resultado da transgressão do povo que o profeta lamenta é a solidão. É um paradoxo: se todos pecamos, deveríamos estar juntos nisso. Mas o pecado nos distancia. Não são todos que fazem a opção de andar com os deformados; eles geralmente se quedam sós.

Quando grandes líderes caem em pecado, uma reclamação que se repete diz respeito à ausência de apoio e cuidado pela igreja. Criticamos, afirmando que a igreja não está preparada para restaurar. Pode ser verdade, ao menos parcialmente. Mas conheci muitos casos em que houve pleno interesse da igreja em restaurar, e ainda assim a restauração não aconteceu.

A verdade é que o pecado isola. Isola, porque aqueles que se consideram santos irão repudiar o pecador. Mas isola porque quase nunca somos capazes de lidar com a própria culpa. O pecador se isola. Utiliza justificativas agressivas e de acusação, alegando que não foram aceitos. Mas a verdade é que não conseguem conviver consigo mesmos.

No contexto da cidade, aquela que era uma referência frondosa, populosa, agora tornara-se solitária. O profeta chora: já não há vida, já não há movimento. No contexto da igreja, pode não fazer sentido. Nossas igrejas não são cidades-fantasma; pelo contrário, estão cheias, cada vez mais cheias. Mas a vida não está lá. As conversões já não são sinceras. Há barulho e não há vida; há movimento e não há vida. O nascer de novo está ausente. E onde não se nasce, se envelhece. Chegará o momento em que os ossos que seguram o corpo já não mais agüentarão. Enquanto existir como um movimento, mas sem a vida verdadeira que emana da Fonte que é Cristo, estamos fadados à condição falida e fantasmagórica da solidão. Aconteceu na Europa. Precisamos chorar. Lamentar é preciso.

Por último, o pecado de Jerusalém gerou aflição, e isso em termos materiais e físicos. É preciso ter cuidado aqui. Sou um combatente à chamada “teologia do castigo”, que lida com os desastres e catástrofes naturais como punição divina pelos erros culturais de uma nação, por exemplo. Não creio nisso. Não creio que o terremoto do Haiti seja uma resposta divina ao vodu. Mas creio que o pecado cansa, desgasta, produz efeitos sobre o pecador que chegam perto da irreversibilidade.

Davi afirma no Salmo 32 que enquanto não lidou com o pecado seu corpo definhava. Dores nos ossos. Não creio que toda osteoporose seja fruto do pecado; creio, porém, que todo pecado é revertido em aflição e peso, o que pode afetar o corpo.

É esse também o lamento de Jeremias. Como era comum aos profetas do Antigo Testamento ele encarna o pecado do povo, e geme de dor. Em Lamentações 1:14 ele diz que o pecado pesava sobre ele como um jugo de escravidão. O pecado desgasta.

A igreja está desgastada. Às vezes me sinto cansado da igreja, mas sou arremetido à verdade inegociável de que eu sou a igreja, e se canso da igreja estou cansado de mim mesmo. Não adianta fugir dos rótulos, afirmar que não sou mais evangélico. Sou sim. E sofro. Meus ombros pesam, meus músculos se contraem e me traem. É preciso lamentar.

Curioso, porém, é conseguir terminar uma meditação tão penosa com alguma esperança. Mas é possível, é absolutamente possível! Basta lembrar que todos esses efeitos do pecado foram assumidos por Jesus. Jesus não somente levou meus pecados e os da igreja com Ele; ele levou todos os pesos e resultados referentes a esses pecados.

Jesus sofreu a deformação. A profecia messiânica de Isaías 53 diz que ele foi esmagado pelas nossas iniqüidades. Moído, Seu corpo foi abatido. Se nossos pecados não causassem tais efeitos, talvez Sua morte pudesse ter sido mais branda, talvez um ataque cardíaco imediato e sem conseqüências, a chamada “morte dos nobres”. Não, Ele é punido com severidade física. O pecado deforma. E ele levou sobre Si a deformação que nos cabia.

Jesus sofreu a solidão. Ele mesmo lamenta o distanciamento de Deus, a dor de sentir-se abandonado: “Eli Eli, Lamá Sabactani” (Mateus 27:46). O pecado isola, e esse isolamento Ele também tomou sobre Si.

Jesus sofreu a aflição. O mesmo texto de Isaías 53 afirma que fomos sarados pelas suas feridas. Ele sentiu dor, Ele sentiu sede. Ele literalmente morreu de dor. O pecado aflige, desgasta, cansa e faz desfalecer. E Ele pagou também esta conseqüência das transgressões da igreja.

Como igreja, eu devo e posso andar vitoriosamente. Ele já sofreu os efeitos da minha própria transgressão. Cabe a mim, portanto, viver de forma a honrá-lo. Intencionalmente.

* Mário Freitas é um verme em processo de conversão.


Comments (3) »

QUEM PECOU NO NORDESTE?

“Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus” (João 9:2-3).

Não sou teólogo. Esse é o meu ponto de partida nesse texto. Nessas linhas, portanto, simplesmente faço vomitar os enjôos do meu coração. Não considero que minhas golfadas sejam ensejos teológicos. Simplesmente, meu coração pesa e amarga quando vê as imagens das violentas enchentes que afligiram Alagoas e Pernambuco nos últimos dias. Foram mais de 40 mortos, ainda dezenas de desaparecidos, e dezenas de milhares de desabrigados. Caos. Inferno na Terra. Haiti no Brasil.

Quando comecei minha peregrinação no Haiti, em Janeiro de 2010, uma pergunta teológica me motivou a ir até lá. Seria o terremoto um castigo pelo pecado relacionado às práticas do vodu? Eu sabia que não, e para mim fazia pouco sentido permanecer em casa, confortavelmente indagando a teologia do problema, privando-me de prestar algum auxílio coerente com o evangelho de Jesus de Nazaré. Por isso parti.

Mas se houve alguma pretensão minha em encerrar com trabalho as baboseiras dessa teologia do castigo, confesso que falhei. A série de bobagens parecia não ter fim. Com o terremoto no Chile, ocorrido em março, disseram que Deus os tinha castigado em função de sua arrogância financeira, já que os nossos quase vizinhos eram vistos como a economia mais sólida da América do Sul. Em seguida, com a tragédia no morro do Bumba e as chuvas do Rio de Janeiro, alguns outros disseram que o povo estava sendo punido por conta do carnaval.

Assim, considerando as catástrofes das últimas chuvas, a primeira questão que me vem à mente agora: Qual será a causa da punição do Nordeste? O que foi que eles fizeram de errado? O que os teólogos de plantão terão para tirar da cartola nesse momento? Que foi que o nordestino fez?

Não será a causa do desastre a suposta idolatria quanto ao Padre Cícero? Ou não serão as festas populares, nessa época de São João? Ainda, não será porventura o sonho geral de se fazer uma vida no sudeste, abandonando a terra natal? Enfim, quem foi que pecou no Nordeste para que merecessem esse mal?

Volto a repetir: não sou teólogo. Mas o texto bíblico citado acima, que narra o encontro de Jesus com o cego de Jericó, o qual hoje li em minha devocional pessoal, me fornece algumas das respostas que minha alma demanda. Algumas respostas, somente algumas. Em muitas de suas crises minha alma continuará sem resposta.

Primeiro, a doutrina da graça não provê espaço para qualquer teologia de causa e efeito. As coisas boas não acontecem como pagamento pela boa conduta, e as coisas ruins nem sempre são castigo por um mau comportamento. Em outras palavras, coisas boas acontecem a pessoas ruins, e tragédias atingem pessoas boas. É por isso que Jesus afirma, sobre o cego de Jericó, que ele não nascera cego por castigo ao pecado de alguém.

Lamentações é um livro esclarecedor. O profeta, homem fiel a Deus e santo em seus procedimentos e escolhas, lamenta o estado da Jerusalém desolada. Num determinado momento, ele entra em crise: pessoas ruins prosperavam, pessoas boas seguiam desabrigadas e oprimidas pelos da Babilônia (v.5). A tragédia leva-nos mesmo a esse tipo de crise de fé, de matematização do mérito. Mas a Bíblia não defende isso. Pelo contrário, a Escritura é o livro do favor imerecido. Desde seu início, trata da história do homem que escolheu cair em pecado, merecendo desde o início o caos, mas que teve suas dívidas pagas na cruz.

Em segundo lugar, o texto do cego de Jericó me ensina que Deus tem uma intenção gloriosa a partir da tragédia. Os discípulos de Jesus fazem uma pergunta referente à causa – “quem pecou?”. Jesus responde com base no propósito – “para que”.

Mas é bem verdade que pode parecer hipócrita dizer que Deus tinha um plano com a devastação do Haiti. Deus não pode ter tido um plano com aquilo. Eu vi, eu estava lá em janeiro. Abrir-se-ia aqui um espaço para uma das questões teológicas mais polêmicas e complexas dos últimos tempos, a saber, o problema do teísmo aberto. No entanto, como já afirmei, não sou teólogo.

Prefiro afirmar que, independente de quem o tenha efetuado, Deus cria uma oportunidade a partir do caos. Para mim é menos importante descobrir o pai da criança do que projetar a esperança que há na criança. Não sei se parece irresponsável, mas penso que vislumbrar esperança na catástrofe é ligeiramente mais proveitoso do que determinar sua origem. Não importa quem tenha feito, importa o que vai resultar.

Quanto ao cego, Jesus afirma que sua limitação visava a glória de Deus. A catástrofe, por si só, não manifesta a glória de Deus. Deus não é glorificado quando uma criança é furtivamente morta enquanto dormia, pelas águas devastadoras de uma enchente. Tampouco, a glória de Deus não é necessariamente expressa quando um teólogo desvenda as origens do sofrimento. Mas a glória de Deus está na unidade do Corpo de Cristo diante da limitação do corpo humano; a glória de Deus está no cumprimento da missão da igreja de Cristo; a glória de Deus está na salvação buscada pelo ímpio, por aquele que não buscava enquanto não via o caos. É polêmico afirmar que Deus tenha causado a catástrofe. Mas parece pacífico afirmar que Ele saiba como ninguém utilizar-se do desastre para criar um novo projeto de esperança. Ele recicla o caos.

Outra vez afirmo: não tenho intenções teológicas aqui. Mas esboço, por essas linhas, meu sentimento de que quero ver a glória de Deus se manifestar através da minha vida, nesses contextos de tribulação. Quero ser luz. Quero ser um barco na enchente. Isso me basta.

Mário Freitas é um doido que mora em BH e coordena trabalhos voluntários no Haiti.

Comments (3) »