O HAITI 6 MESES DEPOIS


Já construímos nosso primeiro templo em Delmas, região de Porto Príncipe.


O dia 12 de Janeiro de 2010 configurou a data mais trágica da história do Haiti, talvez aquele dia que os haitianos, se pudessem, não incluiriam no calendário. O terremoto de 7 pontos na escala Richter dizimou mais de 250 mil pessoas (quase o total populacional somado dos municípios de Cascavel e Toledo) e deixou desabrigados outros 2 milhões de indivíduos. O país dissolveu-se. O mapa da capital mudou: onde antes era rua tornou-se em pilha de escombros. Por vários dias Porto Príncipe ficou incomunicável e com pouco acesso a recursos básicos como água e alimentos. Caos. Desespero. Terror.

Nossa organização teve o privilégio de levar ajuda de igrejas e comunidades brasileiras para algumas regiões do Haiti. Temos viajado ao país com equipes médicas e de engenharia, tendo distribuído um total de mais de 40 toneladas de alimentos. Realizamos clínicas móveis, instalamos sistemas de água potável e já começamos a auxiliar na reconstrução de algumas poucas estruturas físicas. Temos estado no Haiti mensalmente, desde janeiro.

Por conta dessa experiência e dessas muitas incursões no país, quero aqui oferecer um breve relato do que vejo no Haiti seis meses depois do terremoto. Esse texto é confeccionado um pouco antes de se completarem 180 dias daquela que foi a maior catástrofe da história da ONU.

No centro de Porto Príncipe, a “cara de catástrofe” vai demorar para se desfazer; na verdade, o país não está sequer próximo de escapar da chamada condição emergencial. Tudo ainda é muito precário. Ainda vemos muitas características semelhantes ao que víamos em janeiro: jovens tomando água de poças de cimento, em função da pouca disponibilidade de água potável em face do calor insuportável; o desespero e a agressividade dos pedintes nas ruas – ainda não se pode portar comida em determinados locais; a condição de desnutrição dos habitantes dos acampamentos, principalmente no que tange às crianças; entre muitos outros dilemas. O desemprego é alarmante, e muito haverá de ser reconstruído para que haja reais oportunidades de trabalho e recuperação. Porto Príncipe consiste num grande assentamento de barracas, onde pessoas vagam durante o insuportável calor do dia e se escondem das chuvas e deslizamentos à noite.

A somatória desses dados macabros, alguns resultantes do terremoto, outros nem tanto, resulta em graves índices de desnutrição e doenças, além de influenciar diretamente as estatísticas da violência nacional. Aumenta o índice de estupros e assaltos sexuais no contexto dos acampamentos, o que faz proliferar uma diversidade de Doenças Sexualmente Transmissíveis. Tivemos de levar do Brasil uma médica infectologista, especialista em HIV, em nossa última incursão. A Dra. Irene Bruinsma, holandesa radicada em Belo Horizonte, se reuniu com autoridades médicas locais vislumbrando a realização de projetos de prevenção e tratamento no país.

Apesar disso tudo, surge a esperança. Porto Príncipe já está bem mais limpa, com menos escombros. Já começa-se a notar algum movimento em termos de reconstrução física, mas ainda com a característica de muita madeira e pouca alvenaria. O medo não permite que os haitianos sonhem com qualquer forma de suntuosidade sob tijolos. Ainda há grande trauma psicológico no que se refere aos ambientes fechados: mesmo alguns que não perderam suas casas preferem morar nos acampamentos, simplesmente por temerem novos tremores. Pudemos ver grandes estruturas metálicas, estruturas pré-fabricadas com base em madeira e mesmo barracas feitas de lona especial.

Nota-se que alguns locais estratégicos já estão sendo edificados com prioridade, tais como órgãos públicos, escolas e hospitais. A maior parte dessas edificações parte da iniciativa das ONGs, da ONU e das igrejas. E tudo, repito, com pouca alvenaria. Vimos grandes escolas de madeira e grandes hospitais em tendas. Transitório? Sabe-se lá até que ponto. E quanto ao governo haitiano, este ainda apresenta pouca força para reagir.

A economia haitiana pode passar por algumas transições interessantes num futuro próximo. A administração deste processo consiste, por si só,  num grande desafio. O mercado da construção civil naturalmente haverá de crescer, visto que o país apresenta obviamente tal demanda. A área da educação também pode representar boas oportunidades para os haitianos. Espero que a corrupção não vença a sede de reconstrução deste povo tão vibrante.

Nem todos compreendem bem o fato de ajudarmos o Haiti diante da realidade catastrófica de tantos outros lugares, incluindo o Brasil. A necessidade está em toda parte; sempre haverá demandas em todos os cantos da Terra. Mas, conforme afirmado por um cartoon americano, o terremoto fez surgir no mapa mundi uma nação chamada Haiti. As necessidades já estavam lá muito antes do desastre; o mundo é que estava cego quanto àquele contexto de pobreza generalizada bem na esquina da América. A comunidade internacional já deveria ter se voltado para aquele que poderia ser um império turístico e um centro de referência no Caribe. Com a ajuda de Deus, quem sabe ainda venha a ser.

* Mário Freitas carrega caixas e compra madeira para construção no Haiti. Ou seja, faz o que qualquer um poderia fazer.

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3 Respostas so far »

  1. 1

    Graça e paz!! 🙂
    Achei muito bonito esse trabalho que vocês estão fazendo aí, me lembra bastante a história do filme Amor sem fronteiras, que pra mim é uma das mais belas histórias contadas pelo cinema, um pouco longe da realidade que é bem mais cruel, mas muito bonito. Mas não é pra falar do filme que eu vim comentar… rsrs
    Acho muito incrivel essa determinação e força de vontade de vocês em ajudar esse povo que tanto precisa, como você mesmo diz, não faz nada que qualquer um não poderia fazer, mas aí é que tá a diferença entre vocês e “qualquer um”, vocês se dispuseram a fazer, enquanto “qualquer um” ficou em casa se lamentando e pensando que não pode fazer nada por ninguem.
    Lógico que eu tenho consciencia de que nem todo mundo pode ir no Haiti e ajudar a reconstruir, mas acredito que todo mundo pode se doar um pouquinho em favor do seu proximo, e pode ser aquele bem proximo mesmo, aquele morro onde mora e que a violencia impera, mas que você sabe que se der um pouco mais de possibilidades a essas pessoas essa realidade pode ser diferente, pelo menos um pouco, e você tem como dar essas possibilidades, mas não faz nada pq tá acomodado demais na sua vida boa demais.
    Vi isso bem pertinho aqui no nordeste, fui ajudar as vitimas da enchente, fazer o que todo mundo poderia fazer, sair de casa em casa pedindo comida e roupa pra essas pessoas e ouvir de muita gente que podia ajudar dizer que no momento não tem condições, levar um monte de “não” na cara. Mas também vi muita gente se doando de verdade, mesmo com pouca coisa, e todo mundo que ajudou pode ter uma recompensa instantanea, ver uma mãe e um filho sorrindo e agradecendo a você por ter se importado com eles, por ter doado um pouco do seu tempo pra tá ali com eles, pra tá ajudando eles… isso é muito recompensador e acho que vale por todos os “não” que levamos durante varios dias, e, acredito eu, que isso seja um motivador que faz vocês estarem ainda aí se importando com essas pessoas, com esse país, e que faz tantas pessoas aqui no Brasil se importarem e continuarem a dar apoio as vitimas das enchentes.
    E meu desejo é que o Senhor continue nos ajudando e nos dando sempre mais amor no coração e boa vontade de ajudar a quem precisa!
    Eu admiro vocês!
    Como posso ajudar vocês? O que eu posso fazer (que qualquer um pode fazer) por vocês?
    Saibam que agora tem mais uma pessoa orando pelo trabaho de vocês… Deus abençoe vocês!

    P.S: Desculpa pelo comentário tão extenso, mas eu realmente precisava dizer o quanto admiro e acho importante esse trabalho que vocês estão fazendo. 🙂

  2. 2

    Uau, seu comment ficou melhor que o artigo! Obrigado pelo apoio, divulgue a gente aí na sua região mesmo. Precisamos de igrejas parceiras pela causa da igreja haitiana. Mas sem nos esquecer da igreja sofredora do Brasil, a saber, os nordestinos nesse momento. Tudo é Reino! Deus abençoe!
    Mário

  3. 3

    Hehehe 😀
    Que nada, seu artigo ficou muito bom e meu comentário ficou muito longo, isso sim!
    Mas eu tô divulgando sim, mesmo antes de ver a sua resposta já tava divulgando por aqui, indicando o blog aos amigos… Apesar de achar isso muito pouco, mas cada um faz o que pode, né?! Espero poder fazer muito mais, mas por enquanto acho que é só isso mesmo que eu posso fazer, divulgar e orar pra que as pessoas abracem a causa e ajudem com o que eu não posso ajudar!
    Ah, na igreja em que congrego vamos ter um simpósio de missões no final do mês e vamos falar da igreja haitiana, já andei dando uma olhada aqui nos artigos pra aproveitar tudo que puder, mas ficaria grata se pudesse me mandar mais alguma coisa sobre o país (não tem muita coisa na internet sobre o país e sobre a igreja aí.).
    Já sou grata pelo que achei aqui… Material muito bom e de grande ajuda pra nós! 🙂
    Deus continue abençoando vocês!
    E mais uma vez tenho que dizer o quanto admiro vocês… 😀
    Graça e paz!!!


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